Pragmatismo versus Fidelidade

Uma das características mais comuns em uma sociedade humana é valorizar e buscar o sucesso. Em palavras mais diretas, o ser humano sempre busca os meios utilitaristas para ser um bem-sucedido ante seus pares e admiradores. A cultura dita ocidental navega sobre as águas caudalosas da concorrência e da visão empresarial, sofrendo as imposições estatísticas onde os números contam mais alto que a ética, o pudor e o bom senso. O desejo de ganhar sempre e estar à frente dos concorrentes são a palavra de ordem do sistema em que vivemos. Trata-se das lutas de classificação em meio às concorrências acirradas.
Com relação a algumas igrejas cristãs, pelo que tenho percebido, a prática tem sido a mesma. Se perguntarmos hoje qual a evidência do sucesso em uma igreja que se diz cristã, sem medo de errar, seus líderes apontariam ao número de membros já “conquistados” através do seu método “infalível”. “Temos hoje três mil membros em apenas dois anos de trabalho e isso se deve à nossa visão de ministério” poderia bradar algum pastor jactancioso de uma entidade qualquer. O mais triste é que neste caldeirão vale tudo: promessa de prosperidade, capacidade de tornar alguém um líder em poucos meses, grupos que se reúnem em casa, rede ministerial, louvor animado, cura de enfermidades, encontros secretos para sessões de psicanálise “evangélica” etc. Em outras palavras, o que vale é o método e, conseqüentemente, os números (membros) angariados. O que mais chama a atenção, em minha opinião, é o desmantelo teológico, a intolerância, o desrespeito para com outros segmentos mais simples e modestos e a valorização do método inovador em detrimento de um ensino bíblico responsável, da comunhão e da visão de Corpo, desembocando no proselitismo explícito (cooptação de membros de outras igrejas).
Seria isto cristianismo? Embora cada grupo reivindique a autoridade bíblica para o seu método – por vezes sem ética – duvido muito que o modelo proposto nas Escrituras seja qualquer um destes. Se olharmos com sinceridade para a Palavra, vamos perceber que não existe ênfase nos números de membros. Excetuando Atos 2: 41, em nenhum outro lugar há a menção do número de membros em uma igreja, aliás, o próprio apóstolo Paulo afirma que na cidade de Corinto havia batizado apenas dois indivíduos e uma família. O mesmo apóstolo, ao dar seu relatório no final da vida, não informou a quantidade de pessoas que havia experimentado a conversão com seu procedimento evangelístico (que era a simples pregação do Evangelho), mas disse: “... combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé...”, isto por que ele, Paulo, sabia muito bem que as conversões não dependiam de algum método ou modelo “divinamente revelados”, mas sim, pela ação soberana de Deus, ou seja, cada igreja deveria ser fiel enquanto “... o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos" (Atos 2: 47 – grifo meu). Esta afirmação é desconcertante, imagino, pois retira completamente o mérito dos pobres e equivocados líderes das massas e recoloca-o em seu devido lugar: a soberania de Deus. O que pensar, por exemplo, das palavras de Paulo quando diz: "Logo, tem ele [Deus] misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz" (Rm 9: 18)?

Não quero aqui desestimular o ardor evangelístico, tal ato seria uma blasfêmia contra a vontade de Deus, muito pelo contrário, não devemos medir esforços para pregar o evangelho aos pecadores. O que quero ressaltar é que os eleitos irão se converter independente do método que usamos. Não importa se o pregador é um visionário intelectual ou um camponês que mal sabe se expressar; não importa se todos estão na visão da moda ou fora dela; não importa se a igreja passou a ter três mil membros em dois meses ou se é um pequeno rebanho com poucos membros em uma cidade onde o evangelho é perseguido violentamente. " Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia" (Rm 9: 16).

Creio que está na hora dos pastores e líderes atentarem para a exposição honesta da Palavra de Deus, para o ardor evangelístico e, principalmente, para a humildade e a ética no cumprimento das Escrituras. Em outras palavras, o principal é ser fiel. Quanto aos que irão se converter, bem, isto é com a soberania do Deus único sobre todos.


Sola Scriptura.

15 comentários:

Ígor Caffarena disse...

Caro Pr. Alfredo, resolvi postar esse comentário para lhe dar as boas-vindas, e também parabenizá-lo pela iniciativa. Confesso que serei um membro ativo e estarei sempre por aqui lendo os post e, quem sabe, tecendo alguns comentários...
Que a paz do SENHOR seja com tdos!!!

Tim disse...

Parabéns pelo blog. Se eu tivesse mais paciência com a internet montaria um.
Muito bom o texto. Acho interessante você escrever um texto complementar sobre as estratégias na igreja local. Não dos modelos importados ou "infalíveis", mas de propostas de trabalho e organização que emanam do estudo da palavra dentro de um contexto espiritual e cultural da igreja local. Enfatizando que o foco na fidelidade não pode ser também motivo de comodismo, pelo contrário. Eu concordo que números não medem a qualidade do ministério, os ianomamis que o diagam. Mas creio de todo meu coração que o objetivo a Igreja neste mundo é alcaçar as almas perdidas (o máximo possível). Para isso devemos usar de sabedoria e da inteligência que são dadas por Deus. Por isso experiências bem sucedidas na igreja local devem ser sim compartilhadas. Vivemos num mundo onde os espaços estão tão reduzidos que podemos compartilhar com igrejas da Coréia, por exemplo, as boas experiência de Manacapuru. Sobre os modelos mais famosos, participei de uma igreja que usava a rede ministerial. Li as apostilas e decidi nem participar dos encontros - muito fraco. Sempre fui muito crítico em relação a isso. Mas é positivo conhecer experiências abençoadas e talvez até extrair alguma coisa delas aplicando ao nosso contexto. Existem modelos e modelos. a rede ministerial, apesar algumas baboseiras, é baseado em princípios Bíblicos. O G12 é pura baboseira. A igreja tem propósitos(não os do Rick Waren), os da Bíblia. Não precisa de modelos, mas sim de planos. De formas para alcançar seus objetivos. Apesar de saber que vc é um crítico ferrenho dessa obra, o livro Igreja com Propósitos deixa isso bem claro. O erro muitas vezes é das igrejas que o adotam sem criticar, as propostas da obra. Modelos são dispensávis, com exceçao de Atos 42. Compartilhar edifica.
Um grande abraço e que Deus te abençoe com esse flog! Té

Charles L. Grimm disse...

Pr Alfredo,

Um dos problemas que Igreja sofre hoje é o pragmatismo e o seu filho, o ativismo religioso.

Parabéns pelo artigo e pelo blog!

Alfredo F. de Souza disse...

Ígor, obrigado pelo incentivo, conto com você. Um abraço!

Alfredo F. de Souza disse...

Grande Cuncum, é claro que não devemos perder a motivação para fazer planejamento e agendamentos anuais em nossa igreja. Sempre que um retiro é realizado ou uma conferência é feita, em tudo deve haver um propósito. Por outro lado não devemos nos esquecer da meta principal da Igreja: Glorificar e adorar o nome do Senhor Deus; viver em comunhão e; proclamar as virtude do nosso Salvador. Qualquer atividade deve estar imbuída neste grande propósito. Quanto a uma metodologia mais inteligente, não vejo problema nenhum, todavia lembremos que o amadorismo fiel construiu a arca de Noé; já o profissionalismo técnico construiu o Titanic.

Um grande abraço.

Alfredo F. de Souza disse...

Querido irmão Charles, um grande abraço. Já tive o privilégio de conhecer o Anamim no SC, quem sabe um dia não nos cruzamos?

Um abraço fraternal.

Simone Quaresma disse...

"Exposição honesta das Escrituras". É isto!! Aí reside a grande questão, afinal, a fiel pregação do Evangelho coloca o homem no seu devido lugar, e isso não é, digamos, muito interessante! Que bom poder contar com mais essa força! Vê se escreve sempre! E nunca se esqueça que a idéia FOI MINHA!! (hahahaha!) Beijão pra Sandra e pras crianças!

Simone Quaresma disse...

Não vai moderar não, é??!!! Daqui a pouco vais precisar!!!!!

Alfredo F. de Souza disse...

Querida Simone, de fato você é meio mãe deste Blog. Valeu o incentivo. Por enquanto vou deixar meio livre, se houver necessidade passarei a moderar. Um abraço a todos.

Anônimo disse...

Querido Pr Alfredo, meu amigo Duda, esta semana passei com o seu companheiro de viagem pela Africa, Ronaldo Lidório, dentro dos assuntos que foram debatidos o que ficou foi uma reafirmação da nossa convicção de que a Palavra de Deus é normativa e supracultural e deve ser vivenciada a partir do nosso próprio contexto, implicando em uma vida devocional com Deus e aperfeiçoamento do nosso caráter cristão na vida diária. Continue firme nos propósitos que Deus colocou para você e família, um forte abraço a todos. A Marcia avisa a Sandra que em breve estará enviando o material para ela. Sérgião Nascimento

Rogerio Bergara disse...

Pr. Alfredo,

A Bíblia é realmente simples e direta e quando nos expomos a ela, temos nosso ser desnudado, confrontado com a verdade. Ansiamos por Deus e Sua presença em nós, nada mais.
Que os pastores, alicerçados na Palavra de Deus, ouçam esse clamor das ovelhas e passem a apresentar "pastos verdejantes" para os seus rebanhos famintos e desorientados!!!

Alfredo F. de Souza disse...

Grande Sergião, que honra tê-lo em meu Blog. Que bom que você esteve com o Lidório, certamente ele aprendeu muito com você e a querida Márcia. Que o Senhor o abençoe e, por favor, conto com seus comentários aqui.

Um abraço.

Alfredo F. de Souza disse...

Querido Rogério, realmente a Palavra é o poder de Deus!

Um abraço.

Yolanda Nogueira disse...

Dura realidade para os estrategistas com objetivos afins, nas igrejas. Como está escrito que: Quem convence o homem do pecado é o Espírito Santo. Ele veio para ajudador da humanidade, posto que Deus não quer que nenhum pecador se perca e a fé vem pelo ouvir a Palavra, quem crê e for batizado será salvo. Louvado seja Deus na sua vida. Quando Deus faz o chamado, o vaso quem prepara é Ele. Vc sabe, tenho profunda admiração porque vc está bem estruturado na reforma em acordo com a bíblia sagrada. E as lutas dos que deixaram esse legado para ensino e advertência tem sido bem colocada em sua linha de pensamento transmitido em sermões, devocionais, aconselhamentos, etc,,, aos que têm acompanhado o seu trabalho na Obra do Senhor. Que o grande EU SOU, o Senhor dos Exércitos seja eternamente sua capacitação através da ação do Espírito Santo. E assim possa manter o rebanho em alerta, preparados e vigilantes para as adversidades, para os embates da vida. Até breve.

Anônimo disse...

Por que nao:)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...