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O QUE É SER EVANGÉLICO?

Carta fictícia a uma moça que se orgulha de ser evangélica no atual contexto brasileiro.

"Cara Eva Angélica .

Obrigado por escrever e por se interessar por minhas escolhas e pelo meu estilo de vida conforme o Evangelho de Cristo. Obrigado pelas fotos e também por informar sobre a sua atuação como presbítera e a maneira, segundo sua definição, "poderosa e ungida" como conduz a igreja. Devo dizer que discordo cabalmente de tudo, mas obrigado assim mesmo.

Você me perguntou por que não me considero mais um “evangélico” desde o ano de 1996. E me perguntou ainda o que há nos evangélicos que me afasta cada vez mais do tal título.

Bem, em primeiro lugar devo dizer que há muita gente e instituições sérias e bíblicas que são identificadas como evangélicas. São um grupo raro e escasso de pessoas que buscam uma vida piedosa e comprometida com Deus, a estes eu chamo de evangélicos-crentes. Seria leviano de minha parte generalizar, portanto o meu problema não é com este pequeno e raro grupo. A| minha dificuldade é com os demais, ou seja, com o grande curral que abriga o grupo cristão-evangélico que usam o título por não se considerar cristão-católico ou cristão-espírita.

Eva, não há como negar que o termo “evangélico” hoje está esvaziado de conteúdo e definição. Para provar isso, acompanhe comigo e veja algumas características estarrecedoras, lembrando que tais características não incluem o grupo evangélico-crente supracitado.

Começo falando sobre o pecado que não é mais tratado com arrependimento e desejo por santificação. A moda agora é exorcizar os espíritos do adultério, da mentira, da maledicência, da inveja etc. Ou seja, não há mais pecadores, mas sim vítimas inocentes possessas por espíritos imundos, e a única maneira de "santificá-los" é através da "palavra poderosa de exorcismo" ou como preferem: de "libertação". Isso, Eva, é ser evangélico.

Menciono também o fato de que a autoridade não está mais na exposição das Escrituras, aliás, não há mais pregação da Palavra. E para preencher este vazio de autoridade, os mais escabrosos títulos são conferidos: bispo, apóstolo, arcanjo, patriarca. Resumindo, se não há mais a autoridade da Palavra então que haja, pelo menos, a "autoridade" do título. Isso é ser evangélico.

Os cultos não são mais direcionados reverentemente ao Senhor Deus, são realizados para o deleite humano por meio de sessões que incluem exorcismo, mantra, êxtase, apelos, auto-ajuda, cura de enfermidades etc. E em meio a tudo isso, o Deus Todo-Poderoso é transformado em mero coadjuvante que potencializa todo o poder dos dirigentes de tais cultos. Mais uma vez, isso é ser evangélico.

Artefatos sagrados e relíquias são amplamente utilizados para a libertação de seus usuários. Desde as réplicas da Arca da Aliança aos óleos “consagrados”, tudo se transforma em objetos que possuem poder em si mesmos, basta tocá-los ou colocá-los em contato com alguma peça de roupa de outrem para que o milagre ocorra. Isso também é ser evangélico.

O princípio de autoridade masculina é abalroado com a existência de pastoras, bispas (sic)[1], apóstolas[2] e até matriarcas que mandam ver nas igrejas, principalmente nos cultos. O esquema divino (que inclui em ordem de autoridade, Pai, Filho, homem e mulher, conforme 1 Co 11: 3) é totalmente destruído. Embora isso tenha início nas comunidades liberais, não há como negar que hoje tal prática também significa ser evangélico.

A simplicidade dos ministros da Palavra é substituída pelos famosos “evangelistas” que ficam milionários cada vez mais, e cada vez mais caçam dinheiro para financiar seus mega projetos pessoais e profissionais que incluem aviões, horários em televisão, editoras, gravadoras, carrões, mansões e tudo que possa existir de caro e dispendioso. Isso, minha cara, é ser evangélico.

As igrejas estão abarrotadas de super-heróis da fé que negam para si a condição de humilhação, de enfermo, de pobre, de alguém considerado como ovelha para o matadouro, de perseguido, enfim, negam o conteúdo do Evangelho pregado pelo Senhor Jesus e pelos apóstolos. Aliás, estes passariam longe daquilo que hoje é considerada uma vida abençoada. Essa heresia também é ser evangélico.

A soberania divina há séculos é combatida pelos humanistas que se disfarçam de cristãos. São os que afirmam que Deus não possui nenhum controle sobre a vontade humana, ao contrário, o homem é que possui o controle de si mesmo por meio do “livre-arbítrio”. Aliás, o que existe no Trono do céu é a total desinformação sobre a criatura e sobre o tempo futuro. É o teísmo esgarçado que humaniza a mente de Deus e eleva a mente humana ao divino. Não há como negar Eva que isso é ser evangélico.

Ao contrário dos antepassados bíblicos que denunciavam a corrupção dos reis e governadores, hoje a moda é posar ao lado de autoridades, fazer campanha partidária dentro da igreja em tempos de eleições e afirmar que os evangélicos devem invadir Brasília, bem como os palácios estaduais e municipais para que Deus possa agir na sociedade. Bem, nem vou dar-me o trabalho de comentar essa tolice, o que ressalto apenas é a vergonha da corrupção evangelicalizada que ora agradecendo o ganho de propina para trocar o piso da igreja ou para pagar mais uma prestação da Rádio Emissora Gospel adquirida pelo "irmão" político. Isso tem sido a política partidária evangélica.

E o que falar da música gospel? Um horror! O que há de mais grave nisso é a confusão instaurada hoje que transforma o show em culto e o culto em show. Os cantores evangélicos realizam um desserviço ao verdadeiro Evangelho, não só por disseminar heresias e blasfêmias, mas por nos obrigar a conviver com um tipo de música-porcaria que está alinhada com a música-lixo que toca na maioria das rádios hoje. Se for gospel então é evangélico.

Bem, creio que devo parar por aqui para evitar que minha carta se torne um “classificados” e você não passe da metade, pois ser evangélico é ler pouco e cantar muito, daí o ser raso e antibíblico.

Querida Eva, espero ter sido claro na minha argumentação em demonstrar o paganismo que se instaurou nesse meio. Quanta gente vive enganada e quanta vergonha passamos nós por causa desse grupo. Meu desejo sincero é que você reflita um pouco mais e faça um contraste entre a Palavra de Deus e os evangélicos no Brasil. Tomara que você mude de opinião!

Forte Abraço.

Alfredo."

Sola Scriptura


[1] O feminino de bispo é episcopisa.
[2] Para muitos gramáticos, o termo apóstolo não possui feminino por se tratar de um substantivo sobrecomum.

HIPERCALVINISMO: A HERESIA DO DESTINO

Não há como negar que os extremos são expressões do erro que se afastam do verdadeiro. Extremar é embutir a racionalização aristotélica que se sustenta pela visão binária. Quero deixar claro que não estou  desprezando o fato de que há situações estabelecidas nos pólos do “ou, ou”. Mas isso não nos dá o direito de superestimar o binarismo grego em tudo que existe. Isso seria extremo.

Não há, sob hipótese alguma, qualquer contradição na revelação contida nas Escrituras. Mas isso não significa dizer que o texto sagrado segue a simetria rígida grega dos opostos em toda a sua extensão, pois há posições que são, aos nossos raciocínios, paradoxais. Defino aqui paradoxo como uma aparente contradição daquilo que é coerente e verdadeiro dentro do postulado revelado por Deus. O paradoxo está em nosso sistema de raciocínio, e não naquilo que foi proposto pelo Criador. Um exemplo disso é a afirmação de que Satanás deve ser visto também como ministro de Deus. “Mas ele não é inimigo do Senhor?” perguntaria alguém. Sim, mas está sujeito às ordenanças e às determinações soberanas, inclusive para sancionar o reto juízo ou a disciplina necessária de Deus para que os eleitos cresçam na fé. Resumindo, a nossa mente é tão finita e tão fortemente determinada pela estrutura de raciocínio ocidental que não conseguimos apreender certos aspectos revelados na Bíblia.

Provavelmente, o maior e mais visível paradoxo que encontramos nas Escrituras oscila entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Muito se tem debatido sobre isso e muita heresia humanista se tem criado. Uma delas é o arminianismo que, incoerentemente, afirma que Deus apenas sabe quem vai se converter a Cristo ou rejeitá-lo. Ora, se Deus já sabe que um indivíduo irá se converter em um determinado ano, mês, dia e hora, e se a conversão se dá pela ação do Espírito Santo, eu pergunto: “onde está o livre arbítrio”? Outro pensamento que extrema a oscilação entre soberania e responsabilidade humana é o teísmo aberto, tema que discuto em algumas postagens aqui neste espaço virtual.

O terceiro exemplo que quero tratar aqui é o ponto que me motivou a escrever esta postagem. Refiro-me à heresia destinatária conhecida por hipercalvinismo.

Nem todo mundo compreende o que significa este sistema de pensamento. Certa vez eu conversava com uma missionária enquanto lhe dava uma carona e no meio da conversa ela expressou a sua dificuldade para comigo porque me considerava um hipercalvinista. Espantado perguntei o motivo daquela conclusão e a resposta foi: “você acredita na dupla predestinação”. Ora, a dupla predestinação é uma doutrina bíblica que aparece claramente no Velho e no Novo testamento. Crer desta maneira não significa ser um hipercalvinista.

Hipercalvinismo não é outra coisa senão a teologização do cruel destino que faz de cada ser humano um fantoche destituído de vontade. É a rejeição da totalidade do chamado do Evangelho, negando, nas entrelinhas, a vontade dispositiva de Deus com relação ao ímpio. Assim sendo, o hipercalvinismo nega a necessidade de se pregar o Evangelho a toda criatura ou qualquer obrigação para com o próximo.

Eu, como calvinista que sou, creio que o homem é totalmente depravado e que a sua capacidade de querer seguir a Deus foi destruída; creio que Deus elegeu homens para serem salvos incondicionalmente; creio que Cristo morreu para salvar apenas os eleitos; creio que a graça irresistível é apresentada aos eleitos e, por fim; creio que será preservada, inevitavelmente, a salvação destes eleitos até o final. Mas isso não quer dizer que o meu calvinismo anula o dever que tenho de pregar a salvação de Cristo a toda e qualquer criatura, bem como de contribuir com toda obra missionária séria e comprometida com as Escrituras.

O hipercalvinismo é uma doutrina carnal e diabólica que, em sua estrutura, se apresenta como um anticalvinismo. Se alguém me identifica com tal corrente que desonra o meu Senhor, ficarei ofendido e sentirei muita tristeza. 

Para concluir afirmo que minha mente finita não entende a conciliação entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Para mim é paradoxal. Todavia este paradoxo gerado em minha subjetividade não anula a veracidade das duas realidades coexistentes que se expressam muito bem nas palavras de Paulo: “Assim, pois, amados meus (...), desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2: 12, 13). Portanto, não deixarei de pregar a toda e qualquer criatura e nem deixarei de orar para que elas sejam alcançadas pela maravilhosa salvação em Cristo. Nem deixarei de crer na expressão contida em Ez 18: 23: “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? —diz o SENHOR Deus...”

Sola Scriptura

O TEÍSMO ABERTO É COERENTE!

Os que me conhecem devem estar estupefatos com o título que coloquei para esta postagem. Em certa medida, parece que estou cedendo ao canto da sereia, deixando que o humanismo, em sua pior e mais perversa roupagem, esteja contaminando o meu coração. Mas não se trata disso. O que afirmo por meio do título é que o Teísmo Aberto, como teoria, é uma heresia humanista coerente com a lógica deísta da modernidade, coerente com o pensamento que privilegia as intenções do nanismo humano que agiganta as blasfêmias provindas do pecado e da depravação, situações que estão longe do Deus da Bíblia pela distância da eternidade.

A argumentação em defesa da verdade existente na doutrina das Escrituras é relativamente fácil devido à obviedade malévola do Teísmo Aberto. Basta perguntar aos tais teólogos se a sua divindade é a mesma que derramou fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, ou se é a mesma que matou quase toda raça humana com o dilúvio, preservando apenas os seus eleitos, ou se é a mesma que lançará os ímpios no lago de fogo e enxofre destinado a Satanás e seu grupo, ou se é a mesma que enviou serpentes ardentes para matar o povo desobediente no deserto, ou ainda, se é a mesma divindade que realizou todos os sinais de morte realizados na retirada da Igreja do Egito para a terra prometida. Tenho certeza de que tais indagações, simples para qualquer aluno da Escola Dominical, tem poder para deixar qualquer teólogo relacional desconcertado e sem condições de argumentação, pelo menos que seja convincente de acordo com a revelação do Deus justo das Escrituras.

Mas repito, o Teísmo Aberto, em si, é coerente. É coerente com a teoria humanista do livre arbítrio reservada ao homem totalmente árbitro de si mesmo por meio das escolhas. Vejam que este passo a mais dado pelo Teísmo Aberto com relação ao arminianismo conseguiu dar conta deste homem deus–de–si que vivia, nos postulados vigentes de Pelágio a Armínio, a incoerência antagônica entre o Deus soberano e o homem livre desta soberania. No Teísmo Aberto o conceito livre arbítrio faz sentido.

Sempre que converso com um arminiano clássico, digo que é impossível convergir o fato de que há um Deus Onisciente – que sabe exatamente a hora, dia, mês e ano da conversão de alguém – com o livre arbítrio. Que liberdade é esta já prevista por alguém? Agir sob o conhecimento divino sobre o futuro; agir sob um Deus cujos atos humanos e terrenos não lhe causam surpresa; agir sob a rotina que está contida na prevenção divina que sabe quando um fio de cabelo cai da cabeça, pensar assim é incoerente. Para que haja livre arbítrio por excelência, deve haver um deus desprovido de qualquer onisciência, um deus que nada sabe do futuro e que aguarda as decisões da liberdade humana, bem como as ações de toda a natureza.

Dito isto, desejo reafirmar que esta vala teológica é um o humanismo em sua pior e mais perversa arquitetura. É um humanismo que blasfema contra o Deus Todo – Poderoso. Como exemplo, quero citar aqui algumas frases escritas por um teólogo cearense em uma postagem (intitulada: Será que Deus está mesmo no controle?) por ocasião da tragédia no Japão. As frases são:

“É preciso sair do modelo grego de uma divindade marionetando [sic], do alto, os eventos da terra.”

“Deus que intervém não é o mesmo que controla tudo [sic]. Pois, se Deus já controla tudo, não precisa intervir [sic],”

E a pior de todas:

“O deus que administra os eventos, tem propósitos insondáveis e que, pra cumpri-los, deixa tragédias acontecerem, é um demônio [sic].”

E um de seus discípulos, seguindo o mesmo rumo, afirmou em um artigo recente:

“No momento de se tornarem gigantes de misericórdia e solidariedade, se apequenam, tentando defender a idéia de um Deus que determina tragédias e cuja glória se alimenta da dor das pessoas. Esse é um ídolo, não Deus [sic].

Diante de tais abusos doutrinários percebo que a coerência teórica do Teísmo Aberto, muito mais uma Filosofia pagã que uma Teologia cristã, é cruel e modernista cujo contraste com as antigas doutrinas da graça, que é o bendito e santo Evangelho, demonstra a maldade do coração humano que não sabe lidar com a academia e a arte intelectuais.

Tenho pena destes teólogos relacionais, são pessoas frustradas que vieram de uma eclesiologia patológica, desembocando no buraco do paganismo que nada supre. Paganismo que retira a segurança do crente. Paganismo que execra o sofrimento como pedagogia divina. Paganismo que se resume no desejo de transformar este mundo depravado em um mar de rosas. Paganismo que prescinde da disciplina corretiva. Paganismo que destrói a bendita esperança que aguarda a redenção da natureza que contrai com dores de parto até a vinda do Rei dos reis e Senhor dos senhores.

O Teísmo Aberto é, em si, coerente! Coerente com a depravação humana! Coerente com a petrificação da vida que cega o coração e a mente para a verdade do Evangelho!

Que Deus seja Deus sobre todo mero homem mortal!

Sola Scriptura.

OS TNH E O NEOHUMANISMO VIGENTE NO CRISTIANISMO BRASILEIRO


Ao lançarmos o nosso olhar para o reduto evangélico, termo por demais desgastado, descobriremos vários sabores ofertados na praça. Do mais insosso ao mais salgado, do liberal ao neopentecostal, do tradicional ao movimento gospel, há muito com o que rir, chorar ou até indignar-se com o inusitado ou com o surreal.

Dentre esse varejão de ofertas quero destacar um estilo que tem se projetado com muita competência na mídia brasileira e na Internet. Trata-se daqueles que costumo chamar de teólogos neohumanistas (doravante TNH), ou seja, indivíduos que constantemente canibalizam as ciências sociais e outros saberes humanos em detrimento de uma interpretação sincera, humilde, honesta e inegociável das Escrituras. São pessoas que se envolvem com o canto da sereia, com a arapuca das vaidades e, por ingenuidade ou loucura, arrotam expressões ou termos científicos superficialmente decorados para encorpar os discursos que enaltecem, prioritariamente, o humano. O resultado é que esse miserável humano é estabelecido como um ídolo no lugar de Deus.

Mas o que seriam os TNH? Quais as suas características? Em que se diferenciam ou se igualam a outros movimentos ditos cristãos? Para que possamos identifica-los, quero propor três características que são facilmente percebidas nesse “neomovimento”:

1. Os TNH SEMPRE REJEITAM O ANTIGO: este talvez seja a característica mais forte. Seus discursos inflamados sempre bombardeiam o conhecimento teológico construído ao longo da trajetória da Igreja na terra. As vociferações ocorrem por não suportarem a virilidade teológica que defende a inquestionável soberania de Deus manifesta em seu ato criador e, consequentemente, estendida por intermédio da Providência divina. Um exemplo dessa atitude é a declaração de um TNH acerca de um presbítero amigo meu, um servo de Deus sério e comprometido com a Verdade:

...ele apareceu por lá e acabou Presbítero na igreja que meu pai pastoreava. E, naquele tempo, ele já era como ele é: um presbiteriano chato e meticulosamente interessado em letras e não em vida. Vida para ele é comportamento...., não é ser..., não é amar..., não é verdade como sinceridade..., não é nada além de acertos de doutrinas e de condutismo moral superficial. (vide)

Fica claro o tipo de “evangelho” proposto aqui. Aliás, não é o Evangelho das Escrituras, mas sim Cacangelho (“más notícias”) da carne devido ao seu caráter corrosivo e desrespeitoso para com o próximo. Sempre detonam com a Igreja existente, mas se esquecem que, apesar dos problemas, tais Igrejas fazem parte do corpo de Cristo. Não atinam para o contexto das igrejas de Corinto ou Laodicéia que, apesar dos graves problemas, nunca foram identificadas como reduto composto apenas por canalhas. Não! Reconhecia-se que alí habitava também povo eleito.

A impressão que fica é a de que os TNH se imaginam como um tipo de “neorreformadores” salvadores do Reino de Cristo. Sempre se percebem como o novo alvorecer, o frescor da vida até então suprimida, a dádiva dos céus para um mundo sem a ação do Espírito Santo. É como se todo o projeto divino para a humanidade dependesse dos TNH para fazer sentido à mentalidade “pós-moderna” (um dos termos preferidos por esse grupo).

2. OS TNH COLOCAM-SE ACIMA DO BEM E DO MAL. Todos os que não se alinham ao pensamento desse grupo são tratados como escória da humanidade, tachados de pessoas sem amor, sem vida, sem consideração, sem ética, sem sentimento, sem tudo que é nobre, bom ou sublime. Rotulam-nos de fariseus que atuam pela falsidade e intenções escusas. Acusam-nos de brutos e irracionais, agentes da carnalidade e de Satanás. É nesse contexto que os TNH se acham acima do bem e do mal.

Além das críticas desumanas, eles também relativizam os seus próprios problemas morais. Sempre se sentem no direito de maquiar os próprios pecados de adultério, de divórcio, de rebelião contra a igreja ou denominação, de cisma baseado em pressupostos subjetivos, e por aí vai. Tudo feito em nome de uma "graça" barateada e destituída do tremor e temor (medo e pavor) de Deus. Massacram sem piedade aqueles que os criticam, fazendo de cada crítico um pecador carnal repleto (ou vazio?) de desamor e desafeto. Mas eles mesmos se esquecem dos seus próprios erros tratando-os com suavidade. Um TNH, ao ser confrontado por sua posição, escreveu:

Hoje, acordei querendo gritar: Meu Deus, quanta infantilidade. Meu Deus, quanta maldade. Há uma turminha bem mediocrizinha que caminha nos corredores escuros do mundo eclesiástico. Eles são ferozes. Já senti a força de seus ódios, mesmo quando estão bem envernizados de um pieguismo doce. Outrora eu me ressentia com suas investidas dissimuladas. Temia seus processos inquisitórios e exílios programáticos. Contudo, cheguei a um tempo em que a idade (ou foram os desencantos?) me levou a dar de ombros para essas censuras que nascem da inveja. (vide)

Como se percebe, alertam tanto para a suposta truculência alheia, mas escamoteiam as suas próprias brutalidades. Para eles, os outros é que são “turminha mediocrizinha (sic)”, são os “piegas e dissimulados do mal”. Nesse roldão, criticam fortemente a Teologia Reformada como se esta fosse ranzinza, cruel e legalista. Como é que uma teologia pode ser isso e algo mais se o seu fulcro é a graça de Deus? Aliás, estou para ver uma teologia que ressalte com tanta veemência a graça de Deus como a Teologia Reformada. Ela afirma constantemente sobre a depravação total do humano e a intervenção soberana de Deus que age por puro amor e misericórdia. Portanto, o caminho da graça proposto pelos TNH é capenga e eivado por pressupostos seculares e até pagãos. Não há graça lá, o que há é a teoria irresponsável que faz do temível Senhor um inocente Papai Noel ou um Gepeto que busca construir o futuro com seu filho Pinóquio. É como escreveu um famoso TNH:

Essa coisa de “Deus tem um plano para cada criatura” é incoerente em relação à fé cristã, pois seres criados à imagem e semelhança de Deus não podem ser privados da liberdade. Ou os seres humanos são responsáveis pelos seus destinos, ou não podem ser julgados moralmente. (vide)

3. OS TNH FAZEM DO HUMANISMO A SUA BASE ÚLTIMA. Aqui encontramos a fundamentação do conhecimento puramente humano. A Bíblia é totalmente substituída pela lógica pagã ou pela cosmovisão da Ciência da Religião, da Filosofia (capenga, diga-se de passagem), da Literatura ou das Ciências Sociais. Não quero dizer com isso que lançar mão de outros saberes para se compreender o mundo que vivemos como produto das mãos do Criador seja um erro. Mas utilizá-los como critério primeiro é, no mínimo, absurdo. Fazem o humano ser a medida de todas as coisas, impregnando seus textos com o pensamento de esquerda. Psicanalizam tudo como se Freud fosse o grande mago que a tudo explica. Vale ressaltar que, nesse sentido, as produções supostamente intelecualizadas são ultrapassadas quando comparadas com as discussões atuais das academias. Muitos TNH ainda patinam no ultrapassado Sartre com sua angústia existencial, aliás, “existencial” é outro termo predileto deles. As recentes descobertas que fizeram de Nietzsche, Foucault, Paulo Neruda ou Rubem Alves faz com que se embriaguem em seus destilados mortais.

Em minha opinião, os TNH não são outra coisa senão um tipo de Erasmo de Rotterdam redivido. Isso porque ser humanista de esquerda hoje é ser popular e elegante, é ser como um Arnaldo Jabor. O objetivo final é impressionar os pobres confusos com um discurso que a tudo explica ou interpreta pelo viés humano. É isso que promove o sucesso oriundo das explicações que fazem sentido à mente humana,. Eles suprimem a Verdade singular quando esta apresenta, em alguns momentos, aparente contradição. Mal sabem que essas aparentes contradições são compreendidas pela doutrina da soberania de Deus em contraste com a nossa lógica binária limitadíssima. Em suma, os TNH reduzem a revelação ao crivo da mente humana que é imperfeita e absolutamente míope quando se trata das características pertencentes ao Eterno Deus.

Quero concluir essa postagem trazendo um recente texto publicado por um TNH sobre polarizações. Nele encontramos a tricotomização de uma denominação específica, a Igreja Presbiteriana do Brasil. Segundo ele, os três grupos são formados pelos politicamente corretos que abandonaram a denominação (claro que o articulista faz parte dessa “sublime” confraria); pelos esdrúxulos neopentecostais; e pelos fundamentalistas nomeados de Nicodemus. Eis a citação:

De lá para cá houve polarizações: de um lado estão os “universais presbiterianos”, que são assim como o seu pastor: nem se declaram neo-pentecostais e nem deixam de ser; e, do outro lado, estão os Nicodemus... (vide)

Mas o que seria grupo Nicodemus? Para quem não sabe, o Dr. Augustus Nicodemus Lopes é um servo de Deus que sempre foi coerente com as suas convicções bíblicas e teológicas. Tive o privilégio de conhecê-lo em 1985 quando ainda ele era um recém graduado do Seminário Presbiteriano do Norte. Na época fui seu aluno de Introdução ao NT e Metodologia Científica. Hoje esse precioso irmão é um pensador de peso e suas produções em muito tem ajudado na compreensão das Escrituras. Posso afirmar que, apesar do tempo que passou, trata-se da mesma pessoa divertida, crente, compromissada com o Reino e, acima de tudo, um homem temente a Deus.

Nesse contexto, se o TNH acima identifica o grupo presbiteriano com a pessoa do Nicodemus, ou seja, se ser Nicodemus é ser coerente com as Escrituras, se ser Nicodemus é ser ético em tudo que fala e faz, se ser Nicodemus é ser casado com a mesma mulher até o fim da vida, se ser Nicodemus é lutar contra a secularização, se ser Nicodemus é viver pela graça de Deus, se ser Nicodemus é ter compromisso com todo o conselho de Deus, então posso afirmar que sou o mais entusiasmado do grupo Nicodemus e sempre manterei distância segura dos TNH para que meu coração não seja contaminado.

SOLA SCRIPTURA

POVOS EXTINTOS E A PREDESTINAÇÃO – uma reflexão particular sobre a justiça divina

Muito se tem escrito sobre a Predestinação. E os defensores dessa doutrina usam como fundamento as Escrituras, fonte inequívoca das informações sobre a total e absoluta soberania de Deus. É por esse motivo que a Teologia Reformada não se cansa em afirmar sobre a morte de Cristo pelos eleitos, uma vez que o Senhor já determinou de antemão aqueles que iriam ser salvos. Dito isto, esclareço que o meu desejo aqui não é argumentar naquilo que já está fartamente divulgado e publicado por meio da Teologia Bíblica e Sistemática. Meu desejo aqui, conforme expresso no título acima, é refletir sobre o tema Predestinação a partir de um ponto mais focal, particular e empírico: os povos e etnias que já desapareceram no passado remoto.

Por meio dos achados arqueológicos e da etno-história somos informados sobre os muitos povos que surgiram, se desenvolveram e sucumbiram sem deixar um membro sequer. Foram nações que, embora tenham alcançado momentos de glória ou de vantagens tecnológicas da época, em um dado momento da sua trajetória deixaram de existir. Alguns desapareceram pela interação cultural; outros por relacionamento interétnico; outros minguaram pela grande quantidade de batalhas sangrentas, epidemias ou escassez de alimentos; outros foram brutalmente dizimados por povos inimigos mais numerosos ou poderosos nas artes bélicas.

Até aqui não há novidade nenhuma, e imagino que uma pergunta pode surgir: “qual a relação entre a existência e extinção de povos antigos e a predestinação de Deus à salvação?” Minha resposta e proposta neste artigo é que as duas realidades promovem uma reflexão fundamental no que diz respeito à justiça de Deus. Quero, então, ponderar sobre este contexto tomando por base as duas maiores afirmações teológicas sobre a salvação: a arminiana e a reformada.

Segundo a Teologia Arminiana, os indivíduos são dotados de livre-arbítrio, ou seja, Deus não interfere nas decisões humanas e está sempre aguardando o homem decidir se quer ou não a expiação que, por definição, abrange toda humanidade. Com isso afirmam a necessidade vital do contato com a informação sobre o plano de salvação para que as pessoas tenham a oportunidade de escolher ou resistir à salvação. Bem, se para os arminianos isso reflete a justiça de Deus, também é neste ponto que encontramos um grande paradoxo quando pensamos nos povos supramencionados. Todos concordam que muita gente viveu em épocas em que seria humanamente impossível conhecer o Evangelho. A falácia mórmon da visita de Cristo à América não passa de uma lenda espetacular gerada pela mente frutífera de Joseph Smith. Neste caso, então, todos concordam que muitas etnias surgiram, viveram e desapareceram sem a possibilidade de um evangelista se infiltrar no meio deles para dar-lhes a oportunidade de escolha. E isto ocorreu sem que houvesse culpa ou negligência da parte do povo de Deus. Por exemplo, como Abraão poderia em sua época falar do Senhor Deus aos povos do extremo oriente? Ou como Isaías poderia pregar aos povos distantes do continente europeu? Ou como Filipe poderia evangelizar sobre Cristo aos ameríndios nas terras baixas da América do Sul? Vejam que aqui não há negligência, o que há é a impossibilidade temporal, geográfica e cultural, pois o progresso da evangelização estava atrelado às limitações naturais do homem em seu tempo e espaço. O próprio crescimento da igreja acompanhou o ritmo lento da caminhada humana em seu desenvolvimento tecnológico e conhecimento da existência de outros povos em regiões remotas.

Agora pensemos no futuro e a presença destes povos diante do trono de Deus no dia do juízo. No momento do veredicto divino, imaginemos alguém bradar: “como posso ser condenado por algo que não pude escolher?” Percebam que o arminianismo possui este corolário uma vez que a salvação individual depende da escolha de cada um. A dificuldade surge quando não se pode escolher sobre aquilo que nunca se ouviu. Claro que se pensarmos em épocas posteriores ao século XVI concluiremos que as igrejas possuíam a responsabilidade de enviar missionários ao continente americano. Mas, e antes quando ninguém conhecia a existência dos povos indígenas ou do longínquo continente? Como Deus pode ser justo em condenar estes povos sem ter dado a eles a oportunidade de escolha? Aqui temos um problema moral grave, ou seja, se o arminianismo está com a razão, o resultado é um ato injusto da parte de Deus, pois sua condenação cairá sobre pessoas que nunca tiveram contato com a sua Lei especial que menciona a possibilidade da salvação. Se, porventura, os teólogos lançarem mão sobre o texto que afirma sobre o fato do homem ser indesculpável pela revelação natural, ainda assim sabemos que a salvação vem pelo ouvir a Palavra de Deus. E o problema criado por este ramo teológico permanece.

Diante deste sério paradoxo, percebemos que a visão reformada é, sem dúvida nenhuma, muito mais coerente, uma vez que sempre vai resultar num Deus eternamente justo em seu caráter e atos. Isto concorda com uma posição mais bíblica: a Predestinação.

Segundo a Teologia Reformada, Deus, em sua soberana vontade, elegeu incondicionalmente o seu povo, retirando-o da condenação, da morte espiritual e da depravação total, situações advindas pela escolha dos nossos primeiros pais: Adão e Eva. A conversão só ocorre aos eleitos que, ao compreenderem o plano de salvação divino pela evangelização e pela iluminação do Espírito Santo, não podem resistir à graça. Por isso há um ponto muito importante a ser destacado: a expiação de Cristo alcança apenas os predestinados. Em palavras mais simples, Deus, soberanamente, elegeu somente alguns para a salvação eterna. Conseqüentemente, o pecador será condenado, não por que deixara de escolher a Cristo mediante a pregação do Evangelho, mas por que está em depravação total pelo pecado ocorrido no Éden. Ninguém, neste caso, poderá dizer, no dia do julgamento final, que Deus foi injusto por não ter dado a chance de escolha entre Cristo como salvador e a condenação. Pelo contrário, todos, sem exceção alguma, tremerão diante da justiça de Deus que é perfeita, misericordiosa e absoluta.

Aqui neste contexto podemos inserir os antigos povos que surgiram, viveram e desapareceram em tempos imemoriais sem ouvirem uma palavra sequer do Evangelho. Eles serão condenados justamente, pois para isto foram destinados e, em Adão, isto escolheram.

Concluo dizendo que não é meu objetivo nesta reflexão minorar a responsabilidade da inadimplência missionária. Há uma ordem específica para que preguemos o Evangelho a toda criatura, não fazê-lo é pecar por desobediência. Até porque a salvação vem pelo ouvir, por isso todo crente possui esta dívida para com os descrentes. O que quero ressaltar aqui é a situação de povos antiqüíssimos que nunca ouviram a palavra de salvação devido ao momento em que viveram, paralelo ao desenvolvimento que a Igreja passava temporal e geograficamente. Muitos arminianos nos acusam de imputar ao Senhor Deus atos de injustiça por retirar do homem o livre-arbítrio. Mas o problema é muito mais grave do outro lado, pois se Deus supostamente deixou a escolha ao homem em decidir entre a salvação ou não, qualquer um que não tenha ouvido sobre esta salvação, sendo-lhe retirada a possibilidade de opção, sentirá o direito de fazer uma afirmação absurda e totalmente inverídica: “Deus é injusto em alguns casos na trajetória humana”. É claro que não é assim que encontramos nas Escrituras. E, embora esta reflexão esteja pautada muito mais na busca de uma coerência empírica, seu resultado aponta para o que já conhecemos conforme registrado nas Escrituras, ou seja, nosso Deus é eternamente soberano, misericordioso, livre e, acima de tudo, santo e justo.
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