OS TNH E O NEOHUMANISMO VIGENTE NO CRISTIANISMO BRASILEIRO


Ao lançarmos o nosso olhar para o reduto evangélico, termo por demais desgastado, descobriremos vários sabores ofertados na praça. Do mais insosso ao mais salgado, do liberal ao neopentecostal, do tradicional ao movimento gospel, há muito com o que rir, chorar ou até indignar-se com o inusitado ou com o surreal.

Dentre esse varejão de ofertas quero destacar um estilo que tem se projetado com muita competência na mídia brasileira e na Internet. Trata-se daqueles que costumo chamar de teólogos neohumanistas (doravante TNH), ou seja, indivíduos que constantemente canibalizam as ciências sociais e outros saberes humanos em detrimento de uma interpretação sincera, humilde, honesta e inegociável das Escrituras. São pessoas que se envolvem com o canto da sereia, com a arapuca das vaidades e, por ingenuidade ou loucura, arrotam expressões ou termos científicos superficialmente decorados para encorpar os discursos que enaltecem, prioritariamente, o humano. O resultado é que esse miserável humano é estabelecido como um ídolo no lugar de Deus.

Mas o que seriam os TNH? Quais as suas características? Em que se diferenciam ou se igualam a outros movimentos ditos cristãos? Para que possamos identifica-los, quero propor três características que são facilmente percebidas nesse “neomovimento”:

1. Os TNH SEMPRE REJEITAM O ANTIGO: este talvez seja a característica mais forte. Seus discursos inflamados sempre bombardeiam o conhecimento teológico construído ao longo da trajetória da Igreja na terra. As vociferações ocorrem por não suportarem a virilidade teológica que defende a inquestionável soberania de Deus manifesta em seu ato criador e, consequentemente, estendida por intermédio da Providência divina. Um exemplo dessa atitude é a declaração de um TNH acerca de um presbítero amigo meu, um servo de Deus sério e comprometido com a Verdade:

...ele apareceu por lá e acabou Presbítero na igreja que meu pai pastoreava. E, naquele tempo, ele já era como ele é: um presbiteriano chato e meticulosamente interessado em letras e não em vida. Vida para ele é comportamento...., não é ser..., não é amar..., não é verdade como sinceridade..., não é nada além de acertos de doutrinas e de condutismo moral superficial. (vide)

Fica claro o tipo de “evangelho” proposto aqui. Aliás, não é o Evangelho das Escrituras, mas sim Cacangelho (“más notícias”) da carne devido ao seu caráter corrosivo e desrespeitoso para com o próximo. Sempre detonam com a Igreja existente, mas se esquecem que, apesar dos problemas, tais Igrejas fazem parte do corpo de Cristo. Não atinam para o contexto das igrejas de Corinto ou Laodicéia que, apesar dos graves problemas, nunca foram identificadas como reduto composto apenas por canalhas. Não! Reconhecia-se que alí habitava também povo eleito.

A impressão que fica é a de que os TNH se imaginam como um tipo de “neorreformadores” salvadores do Reino de Cristo. Sempre se percebem como o novo alvorecer, o frescor da vida até então suprimida, a dádiva dos céus para um mundo sem a ação do Espírito Santo. É como se todo o projeto divino para a humanidade dependesse dos TNH para fazer sentido à mentalidade “pós-moderna” (um dos termos preferidos por esse grupo).

2. OS TNH COLOCAM-SE ACIMA DO BEM E DO MAL. Todos os que não se alinham ao pensamento desse grupo são tratados como escória da humanidade, tachados de pessoas sem amor, sem vida, sem consideração, sem ética, sem sentimento, sem tudo que é nobre, bom ou sublime. Rotulam-nos de fariseus que atuam pela falsidade e intenções escusas. Acusam-nos de brutos e irracionais, agentes da carnalidade e de Satanás. É nesse contexto que os TNH se acham acima do bem e do mal.

Além das críticas desumanas, eles também relativizam os seus próprios problemas morais. Sempre se sentem no direito de maquiar os próprios pecados de adultério, de divórcio, de rebelião contra a igreja ou denominação, de cisma baseado em pressupostos subjetivos, e por aí vai. Tudo feito em nome de uma "graça" barateada e destituída do tremor e temor (medo e pavor) de Deus. Massacram sem piedade aqueles que os criticam, fazendo de cada crítico um pecador carnal repleto (ou vazio?) de desamor e desafeto. Mas eles mesmos se esquecem dos seus próprios erros tratando-os com suavidade. Um TNH, ao ser confrontado por sua posição, escreveu:

Hoje, acordei querendo gritar: Meu Deus, quanta infantilidade. Meu Deus, quanta maldade. Há uma turminha bem mediocrizinha que caminha nos corredores escuros do mundo eclesiástico. Eles são ferozes. Já senti a força de seus ódios, mesmo quando estão bem envernizados de um pieguismo doce. Outrora eu me ressentia com suas investidas dissimuladas. Temia seus processos inquisitórios e exílios programáticos. Contudo, cheguei a um tempo em que a idade (ou foram os desencantos?) me levou a dar de ombros para essas censuras que nascem da inveja. (vide)

Como se percebe, alertam tanto para a suposta truculência alheia, mas escamoteiam as suas próprias brutalidades. Para eles, os outros é que são “turminha mediocrizinha (sic)”, são os “piegas e dissimulados do mal”. Nesse roldão, criticam fortemente a Teologia Reformada como se esta fosse ranzinza, cruel e legalista. Como é que uma teologia pode ser isso e algo mais se o seu fulcro é a graça de Deus? Aliás, estou para ver uma teologia que ressalte com tanta veemência a graça de Deus como a Teologia Reformada. Ela afirma constantemente sobre a depravação total do humano e a intervenção soberana de Deus que age por puro amor e misericórdia. Portanto, o caminho da graça proposto pelos TNH é capenga e eivado por pressupostos seculares e até pagãos. Não há graça lá, o que há é a teoria irresponsável que faz do temível Senhor um inocente Papai Noel ou um Gepeto que busca construir o futuro com seu filho Pinóquio. É como escreveu um famoso TNH:

Essa coisa de “Deus tem um plano para cada criatura” é incoerente em relação à fé cristã, pois seres criados à imagem e semelhança de Deus não podem ser privados da liberdade. Ou os seres humanos são responsáveis pelos seus destinos, ou não podem ser julgados moralmente. (vide)

3. OS TNH FAZEM DO HUMANISMO A SUA BASE ÚLTIMA. Aqui encontramos a fundamentação do conhecimento puramente humano. A Bíblia é totalmente substituída pela lógica pagã ou pela cosmovisão da Ciência da Religião, da Filosofia (capenga, diga-se de passagem), da Literatura ou das Ciências Sociais. Não quero dizer com isso que lançar mão de outros saberes para se compreender o mundo que vivemos como produto das mãos do Criador seja um erro. Mas utilizá-los como critério primeiro é, no mínimo, absurdo. Fazem o humano ser a medida de todas as coisas, impregnando seus textos com o pensamento de esquerda. Psicanalizam tudo como se Freud fosse o grande mago que a tudo explica. Vale ressaltar que, nesse sentido, as produções supostamente intelecualizadas são ultrapassadas quando comparadas com as discussões atuais das academias. Muitos TNH ainda patinam no ultrapassado Sartre com sua angústia existencial, aliás, “existencial” é outro termo predileto deles. As recentes descobertas que fizeram de Nietzsche, Foucault, Paulo Neruda ou Rubem Alves faz com que se embriaguem em seus destilados mortais.

Em minha opinião, os TNH não são outra coisa senão um tipo de Erasmo de Rotterdam redivido. Isso porque ser humanista de esquerda hoje é ser popular e elegante, é ser como um Arnaldo Jabor. O objetivo final é impressionar os pobres confusos com um discurso que a tudo explica ou interpreta pelo viés humano. É isso que promove o sucesso oriundo das explicações que fazem sentido à mente humana,. Eles suprimem a Verdade singular quando esta apresenta, em alguns momentos, aparente contradição. Mal sabem que essas aparentes contradições são compreendidas pela doutrina da soberania de Deus em contraste com a nossa lógica binária limitadíssima. Em suma, os TNH reduzem a revelação ao crivo da mente humana que é imperfeita e absolutamente míope quando se trata das características pertencentes ao Eterno Deus.

Quero concluir essa postagem trazendo um recente texto publicado por um TNH sobre polarizações. Nele encontramos a tricotomização de uma denominação específica, a Igreja Presbiteriana do Brasil. Segundo ele, os três grupos são formados pelos politicamente corretos que abandonaram a denominação (claro que o articulista faz parte dessa “sublime” confraria); pelos esdrúxulos neopentecostais; e pelos fundamentalistas nomeados de Nicodemus. Eis a citação:

De lá para cá houve polarizações: de um lado estão os “universais presbiterianos”, que são assim como o seu pastor: nem se declaram neo-pentecostais e nem deixam de ser; e, do outro lado, estão os Nicodemus... (vide)

Mas o que seria grupo Nicodemus? Para quem não sabe, o Dr. Augustus Nicodemus Lopes é um servo de Deus que sempre foi coerente com as suas convicções bíblicas e teológicas. Tive o privilégio de conhecê-lo em 1985 quando ainda ele era um recém graduado do Seminário Presbiteriano do Norte. Na época fui seu aluno de Introdução ao NT e Metodologia Científica. Hoje esse precioso irmão é um pensador de peso e suas produções em muito tem ajudado na compreensão das Escrituras. Posso afirmar que, apesar do tempo que passou, trata-se da mesma pessoa divertida, crente, compromissada com o Reino e, acima de tudo, um homem temente a Deus.

Nesse contexto, se o TNH acima identifica o grupo presbiteriano com a pessoa do Nicodemus, ou seja, se ser Nicodemus é ser coerente com as Escrituras, se ser Nicodemus é ser ético em tudo que fala e faz, se ser Nicodemus é ser casado com a mesma mulher até o fim da vida, se ser Nicodemus é lutar contra a secularização, se ser Nicodemus é viver pela graça de Deus, se ser Nicodemus é ter compromisso com todo o conselho de Deus, então posso afirmar que sou o mais entusiasmado do grupo Nicodemus e sempre manterei distância segura dos TNH para que meu coração não seja contaminado.

SOLA SCRIPTURA

4 comentários:

Heleno disse...

Texto brilhante!! Meu velho, você foi fundo em poucas palavras.

O nível de conhecimento do Caio acerca do Solano e do Augustus é superficial e esteriotipado, pois quem conhece um pouco mais esses servos de Deus pode ver neles a seriedade com a graça de Deus, bem como a serenidade da graça no bom humor que têm de sobra! Augustus é daqueles que consegue contar piada no meio de uma aula de "Métodos Críticos de Interpretação Bíblica"! Quem já foi seu aluno e/ou é amigo sabe. Ambos estão longe de serem chatos ou meticulosos, a não ser que isto signifique seriedade com as Escrituras. Bom... neste caso eu tenho que admitir: eu também sou do grupo dos "Nicodemus".

Alfredo de Souza disse...

Heleno, é isso mesmo. Conheço o Augustus e sei o seu compromisso com o Senhor e as Escrituras. Vejo como a graça de Deus tem alcançado esse irmão. Nesse caso, conforme a alfinetada do TNH, prefiro ser parte desse grupo.

Anônimo disse...

Pastor Alfredo,

Como sempre lúcido, contemporâneo, perspicaz, trazendo luz para os leigos com brilhantismo.
Sinto saudades da época que morava em Boa Vista, quando podia desfrutar da alegria de ser "sua ovelha".
Só um porém: lembro que o Sr. franqueou tempos atrás o púlpito para um desses TNH citados no artigo.
Confesso que não entendi na época, pois já o via mais ou menos como o sr. o retrata neste artigo (daí não ter ido a igreja durante o transcorrer do evento que ele "abrilhantava").
Mas lembro também de uma palavra do Sr. para mim em uma certa ocasião: ninguém é 100% .

Alfredo de Souza disse...

Querida ex-ovelha,

obrigado pelas palavras de ânimo e carinho. Continue em oração por mim e roge para que o Senhor continue usando de misericórdia para com o meu ministério.

Com relação ao um TNH ter pregado na Primeira Igreja, eu não lembro disso. O que me recordo foi que o Conselho da igreja cedeu o nosso auditório à Missão Evangélica da Amazônia para que realizassem a convenção anual e o pregador, na época, foi o Ricardo Gondim. Isso foi há uns dez a doze anos, se não me engano. Naquela época ele, o Gondim, ainda não tinha aderido à Tedologia Relacional.

Logo, aquele evento era de total responsabilidade da missão (que é, por sinal, cessacionista e dispensacionalista). O Conselho apenas cedeu o espaço. Hoje, porém, jamais cederíamos o auditório a um TNH, mesmo que fosse de responsabilidade de outra instituição.

Um grande abraço e volte sempre.

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