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152 ANOS DE PRESBITERIANISMO NO BRASIL

A Igreja Presbiteriana do Brasil comemorou neste dia 12 de agosto de 2011 os seus 152 anos de existência no Brasil, embora saibamos que a presença reformada em solo tupiniquim antecede, e muito, esta data. Pois foi em 21 de março de 1557 que houve a primeira Santa Ceia de orientação reformada no Brasil, mais precisamente na baía da Guanabara, ministradas pelo Rev. Pierre Richier e seu auxiliar, o Rev. Guillaume Chartier, pastores enviados pessoalmente pelo próprio João Calvino. Quase cem anos depois, entre os anos 1637 e 1644, o nordeste brasileiro viveu forte influência da Igreja Reformada quando a região de Pernambuco foi comandada por Maurício de Nassau. Portanto, a fé reformada ronda as nossas terras desde o século XVI, ou seja, há 454 anos.

Mas foi em 12 de agosto de 1859 que o Rev. Ashbel Simonton, missionário estadunidense, chegou ao Brasil para plantar a Igreja Presbiteriana. Seu ministério aqui foi de apenas oito anos quando veio a falecer de febre amarela aos 34 anos de idade. Mas foi o próprio Deus, em sua fidelidade, que plantou e preservou o povo presbiteriano brasileiro e hoje a Igreja Presbiteriana do Brasil é uma grande e respeitada denominação.

Após toda esta trajetória vivenciada pela fidelidade pactual do Senhor Deus, seria oportuno refletir um pouco sobre a relevância da IPB em solo brasileiro e qual seria o seu legado. Acredito que os desafios são muitos, e há muita coisa boa a se imitar de nossos pais do passado. Por este motivo, quero destacar aqui apenas quatro desafios que devemos preservar como igreja no Brasil, existente na sociedade brasileira:

1) Fidelidade na pregação da Palavra. Durante a jornada do povo de Deus ao longo dos tempos, muitas foram, e ainda são, as tentativas de se esvaziar as Escrituras Sagradas de seu conteúdo básico. As heresias, as superstições e o humanismo buscam inserir ideologias enfraquecedoras da firme, irremovível e inabalável Lei do Senhor. E não há como negar a triste constatação de muitos pregadores presbiterianos que subscrevem tais idéias alienígenas à nossa única regra de fé e de prática. Por isso, nosso desafio continua em desmascarar todas as bravatas e sofismas que, em nome do pragmatismo ou do intelectualismo estéril, tentam desonrar a preciosa revelação divina. Portanto, a Igreja Presbiteriana deve continuar fiel na pregação da Palavra!

2) Comportamento ilibado pela santificação. O mundo está cansado dos teatros e das dissimulações decorrentes de igrejas que nada mais são do que sepulcros azulejados em picadeiros psicodélicos. É preciso compreender de uma vez por todas que o verdadeiro brilho diante das multidões não é aquilo que a carne, o mundo ou Satanás podem replicar. O verdadeiro brilho que ofusca as multidões é a vida de piedade e de obediência à Lei do Senhor Deus. Vidas impolutas, vidas santas! É disso que o mundo necessita para imitar. Portanto, a Igreja Presbiteriana deve continuar santa neste mundo depravado!

3) Engajamento na evangelização mundial. Esta obrigação que recai sobre cada crente é indiscutível. Neste sentido, é ato de infidelidade não se envolver com a proclamação das virtudes do nosso Deus aos pecadores. O próprio missionário Simonton, nosso pioneiro, foi um instrumento divino para a plantação de nossa igreja no Brasil. Ele mesmo foi desafiado à evangelização mundial por Charles Hodge e enviado ao Rio de Janeiro pela Igreja Presbiteriana dos EUA (PCUSA), entidade que já mantinha vários postos missionários na Índia, na Tailândia, na China, no Japão e na Colômbia desde 1837. Este é o grande exemplo que temos dos nossos antepassados. Nisto devemos também ser fiéis. Portanto, a Igreja Presbiteriana deve continuar engajada na evangelização ao redor do mundo!

4) Coerência quanto aos parâmetros teológicos. Hoje em dia, o termo evangélico é sinônimo de superficialidade ou de polissemia doutrinária. Não há mais robustez teológica nem compromisso com a Verdade. O que se vê e o que se ouve são inovações nocivas ao zelo peculiar às práticas daquilo que pertence ao Senhor Deus e à sua Palavra. Um exemplo disto é a noção atual de autoridade, presente nos títulos esdrúxulos que identificam aqueles que intitulam a si mesmos como apóstolos, patriarcas ou arcanjos. Além disso, o liberalismo inoculado mansamente envenena a muitos contra tudo aquilo que prioriza os valores morais e éticos de Deus. Ou seja, relativiza o pecado para adequar a teologia às práticas prazerosas dos membros, dando-lhes conforto na depravação. Isso se vê no cotidiano, no discurso e nas liturgias lamentáveis. Não nos esqueçamos de que somos reformados, conseqüentemente possuímos uma teologia muito bem expressa por meio dos nossos símbolos de fé que, no ingresso à igreja, prometemos observar ao longo de nossa vida como crentes. Portanto, a Igreja Presbiteriana deve continuar coerente à sua teologia expressa em seus símbolos de fé!

É importante concluir dizendo que o conjunto destas práticas não deve ser visto como um fim em si mesmo, mas todas elas, assim como todas as nossas demais ações e pensamentos, devem ser unicamente para a glória devida ao nosso Deus, o motivo da nossa existência como igreja e o preservador desta obra até ao Dia do Senhor Jesus.

Que neste ano a mais de vida, que nas comemorações dos 152 anos de existência no Brasil, reflitamos sobre a nossa identidade e o nosso propósito neste mundo.

Sola Scriptura.
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A foto acima é da Primeira Igreja Presbiteriana de Roraima onde pastoreio há 21 anos.

HIPERCALVINISMO: A HERESIA DO DESTINO

Não há como negar que os extremos são expressões do erro que se afastam do verdadeiro. Extremar é embutir a racionalização aristotélica que se sustenta pela visão binária. Quero deixar claro que não estou  desprezando o fato de que há situações estabelecidas nos pólos do “ou, ou”. Mas isso não nos dá o direito de superestimar o binarismo grego em tudo que existe. Isso seria extremo.

Não há, sob hipótese alguma, qualquer contradição na revelação contida nas Escrituras. Mas isso não significa dizer que o texto sagrado segue a simetria rígida grega dos opostos em toda a sua extensão, pois há posições que são, aos nossos raciocínios, paradoxais. Defino aqui paradoxo como uma aparente contradição daquilo que é coerente e verdadeiro dentro do postulado revelado por Deus. O paradoxo está em nosso sistema de raciocínio, e não naquilo que foi proposto pelo Criador. Um exemplo disso é a afirmação de que Satanás deve ser visto também como ministro de Deus. “Mas ele não é inimigo do Senhor?” perguntaria alguém. Sim, mas está sujeito às ordenanças e às determinações soberanas, inclusive para sancionar o reto juízo ou a disciplina necessária de Deus para que os eleitos cresçam na fé. Resumindo, a nossa mente é tão finita e tão fortemente determinada pela estrutura de raciocínio ocidental que não conseguimos apreender certos aspectos revelados na Bíblia.

Provavelmente, o maior e mais visível paradoxo que encontramos nas Escrituras oscila entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Muito se tem debatido sobre isso e muita heresia humanista se tem criado. Uma delas é o arminianismo que, incoerentemente, afirma que Deus apenas sabe quem vai se converter a Cristo ou rejeitá-lo. Ora, se Deus já sabe que um indivíduo irá se converter em um determinado ano, mês, dia e hora, e se a conversão se dá pela ação do Espírito Santo, eu pergunto: “onde está o livre arbítrio”? Outro pensamento que extrema a oscilação entre soberania e responsabilidade humana é o teísmo aberto, tema que discuto em algumas postagens aqui neste espaço virtual.

O terceiro exemplo que quero tratar aqui é o ponto que me motivou a escrever esta postagem. Refiro-me à heresia destinatária conhecida por hipercalvinismo.

Nem todo mundo compreende o que significa este sistema de pensamento. Certa vez eu conversava com uma missionária enquanto lhe dava uma carona e no meio da conversa ela expressou a sua dificuldade para comigo porque me considerava um hipercalvinista. Espantado perguntei o motivo daquela conclusão e a resposta foi: “você acredita na dupla predestinação”. Ora, a dupla predestinação é uma doutrina bíblica que aparece claramente no Velho e no Novo testamento. Crer desta maneira não significa ser um hipercalvinista.

Hipercalvinismo não é outra coisa senão a teologização do cruel destino que faz de cada ser humano um fantoche destituído de vontade. É a rejeição da totalidade do chamado do Evangelho, negando, nas entrelinhas, a vontade dispositiva de Deus com relação ao ímpio. Assim sendo, o hipercalvinismo nega a necessidade de se pregar o Evangelho a toda criatura ou qualquer obrigação para com o próximo.

Eu, como calvinista que sou, creio que o homem é totalmente depravado e que a sua capacidade de querer seguir a Deus foi destruída; creio que Deus elegeu homens para serem salvos incondicionalmente; creio que Cristo morreu para salvar apenas os eleitos; creio que a graça irresistível é apresentada aos eleitos e, por fim; creio que será preservada, inevitavelmente, a salvação destes eleitos até o final. Mas isso não quer dizer que o meu calvinismo anula o dever que tenho de pregar a salvação de Cristo a toda e qualquer criatura, bem como de contribuir com toda obra missionária séria e comprometida com as Escrituras.

O hipercalvinismo é uma doutrina carnal e diabólica que, em sua estrutura, se apresenta como um anticalvinismo. Se alguém me identifica com tal corrente que desonra o meu Senhor, ficarei ofendido e sentirei muita tristeza. 

Para concluir afirmo que minha mente finita não entende a conciliação entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Para mim é paradoxal. Todavia este paradoxo gerado em minha subjetividade não anula a veracidade das duas realidades coexistentes que se expressam muito bem nas palavras de Paulo: “Assim, pois, amados meus (...), desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2: 12, 13). Portanto, não deixarei de pregar a toda e qualquer criatura e nem deixarei de orar para que elas sejam alcançadas pela maravilhosa salvação em Cristo. Nem deixarei de crer na expressão contida em Ez 18: 23: “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? —diz o SENHOR Deus...”

Sola Scriptura

EVANGELIZAÇÃO MISSIONÁRIA: ESTRATÉGIA HUMANA OU SOBERANIA DIVINA?

Escrevi esta carta em resposta a uma dúvida sobre: "estratégia humana e soberania de Deus em missões" enviada por uma missionária no campo. O nome foi trocado por questões óbvias.

Querida Ana,

Em primeiro lugar, muito obrigado por ter escrito sobre este assunto. Eu me sinto honrado em poder pastorear os missionários que estão no campo, pode usar e abusar.

Quanto ao assunto que você escreveu, vamos lá. Quando eu vejo o processo de evangelização no geral, sempre gosto de analisar em duas dimensões que se complementam. Por um lado vejo a soberania de Deus, fato inequívoco fartamente registrado nas Escrituras. Lá encontramos, por exemplo, que o homem não pode buscar a Deus por si só (Rm 3: 10 – 18); também descobrimos que a própria fé é um dom de Deus (Ef 2: 8, 9), logo, não é o homem com sua estratégia evangelística que converte o pecador, é Deus que vai ao encontro dele e acrescenta-o ao rebanho.

Nesse contexto devemos pensar o seguinte: “então não importa como eu pregue, uma vez que é o Senhor quem converte?” Não, não é bem assim. A evangelização requer estratégia humana sim, eu até diria estratégia cultural. Um exemplo é a língua. Para que o Evangelho seja compreendido eu devo pregar em uma língua que o ouvinte compreenda. Já pensou alguém pregando em sawi em plena Praça da Sé em São Paulo? É neste ponto que ressalto o uso de uma estratégia, por mínima que seja, para que a proclamação faça sentido (At 18: 4; 19: 8; 1 Co 9: 19 – 23). Quando pensamos em evangelização transcultural, o assunto se torna complexo, pois mesmo que utilize uma tática absurda para pregar em uma praça, eu, todavia, estou impregnado da mesma cultura daquele que me houve, pelo menos em aspectos gerais – a representação subjetiva do mundo.

É por isso que "Missões transculturais" é algo que deve ser debatido com seriedade, principalmente no que diz respeito às estratégias que devem ser utilizadas. Pensando em missões indígenas ao longo do tempo podemos avaliar em como houve erros na introdução do Evangelho. No passado, os missionários acreditavam que somente com a língua do outro poderiam eficazmente pregar a Palavra. Engano! Até mesmo hoje, muitos missionários nunca ouviram falar sobre “perspectivismo ameríndio”, ou seja, que a representação do mundo por parte deles é absolutamente dispare da nossa representação.

Vou apenas pincelar esta questão para que você entenda melhor. Nossa visão ocidental é demarcada pela racionalidade. Nós só consideramos humano aquele que partilha de uma razão, ou, num termo mais filosófico, um espírito. Pense você mesma, por que os Yanomami são seres humanos? Sua resposta vai na direção do que estou escrevendo agora: “Eles possuem alma”; ou, “eles possuem razão, são racionais”. Nesta dimensão encontramos uma concepção rígida do “ser”, pois ou é humano ou é animal – isto é o princípio da racionalidade. É neste contexto que pensamos: “ou se é cristão ou não, ou o sujeito é convertido ou ele não é”.

Já a visão indígena foge completamente desta lógica, pois para eles o que torna alguém semelhante é o corpo e não o espírito – é o princípio da animalidade. Lévi-Strauss informa que, enquanto a Universidade de Salamanca discutia se o índio tinha alma ou não (princípio da racionalidade), os Asteca afogavam os europeus aprisionados para verem se tinham corpo ou não (princípio da animalidade). Animalidade porque o corpo é o ponto de vista, logo não há problema, por exemplo, de um xamã se tornar um porco do mato ou um colibri, para ele isso é perfeitamente normal, enquanto para nós se trata de êxtase, blefe ou possessão (representação ligada à alma ou espírito). Há uma citação de Hans Staden no século XVI sobre Cunhambebe que diz o seguinte: “(...) Cunhambebe tinha à sua frente um grande cesto cheio de carne humana. Comia de uma perna, segurou-m’a diante da boca e perguntou-me se também queria comer. Respondi: ‘Um animal irracional não come um outro parceiro, e um homem deve devorar um outro homem? ’ Mordeu-a então, e disse: ‘Jauára ichê’ (Sou um jaguar)”. Percebeu o contraste? Quando temos este tipo de informação passamos a entender a inconstância indígena com relação ao cristianismo e às frases do tipo: “no passado eu era crente, ontem eu era um xamã, hoje sou uma sucuri”.

Com relação aos Yanomami, recomendo que você leia a minha dissertação de mestrado onde trato da atuação dos missionários no passado, a visão cultural que tinham e como isso contribuiu para a evangelização desses índios.

Concluo dizendo que não estou tratando de conflitos de valores aqui. As Escrituras informam claramente sobre este assunto. O que estou discutindo aqui se trata um pouco daquilo que devemos utilizar para a comunicação do Evangelho. Por isso afirmo que as estratégias são importantes na evangelização. Dependendo da atuação inicial você pode abrir como fechar a possibilidade da comunicação do Evangelho numa cultura ágrafa. Não basta apenas aprender a língua e transcodificar o índio pela nossa representação cultural (animismo, racionalidade, “coerência”, pontos excludentes etc.), temos que compreender a forma como eles vêem o mundo e ajustam suas práticas nestas representações. Por outro lado, não nos esqueçamos que somente os eleitos irão se converter, mas isso pertence à vontade soberana e oculta do nosso Deus (só para deixar claro que o mérito não está na estratégia, mas sim em Deus usar ou não da sua misericórdia).

Bem, espero ter ajudado um pouco. Que Deus a abençoe muito no campo missionário e que o Espírito Santo a mantenha animada e firme em fidelidade – isto é o mais importante para uma missionária de Cristo.

Um abraço.

Alfredo.


P.S. Autores na área da Antropologia que recomendo para essa discussão:

ALBERT, B. O Ouro Canibal e a Queda do Céu: Uma Crítica Xamânica da Economia Política da Natureza. Brasília: Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, 1995.
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_________________ Transformando os Deuses: Os Múltiplos Sentidos da Conversão entre os Povos Indígenas no Brasil. Campinas: Unicamp, 1999.
WRIGHT, R. (Org.) Transformando os Deuses: Igrejas Evangélicas, Pentecostais e Neopentecostais entre os Povos Indígenas no Brasil. Campinas: Unicamp, 2004. Posted by Picasa

POVOS EXTINTOS E A PREDESTINAÇÃO – uma reflexão particular sobre a justiça divina

Muito se tem escrito sobre a Predestinação. E os defensores dessa doutrina usam como fundamento as Escrituras, fonte inequívoca das informações sobre a total e absoluta soberania de Deus. É por esse motivo que a Teologia Reformada não se cansa em afirmar sobre a morte de Cristo pelos eleitos, uma vez que o Senhor já determinou de antemão aqueles que iriam ser salvos. Dito isto, esclareço que o meu desejo aqui não é argumentar naquilo que já está fartamente divulgado e publicado por meio da Teologia Bíblica e Sistemática. Meu desejo aqui, conforme expresso no título acima, é refletir sobre o tema Predestinação a partir de um ponto mais focal, particular e empírico: os povos e etnias que já desapareceram no passado remoto.

Por meio dos achados arqueológicos e da etno-história somos informados sobre os muitos povos que surgiram, se desenvolveram e sucumbiram sem deixar um membro sequer. Foram nações que, embora tenham alcançado momentos de glória ou de vantagens tecnológicas da época, em um dado momento da sua trajetória deixaram de existir. Alguns desapareceram pela interação cultural; outros por relacionamento interétnico; outros minguaram pela grande quantidade de batalhas sangrentas, epidemias ou escassez de alimentos; outros foram brutalmente dizimados por povos inimigos mais numerosos ou poderosos nas artes bélicas.

Até aqui não há novidade nenhuma, e imagino que uma pergunta pode surgir: “qual a relação entre a existência e extinção de povos antigos e a predestinação de Deus à salvação?” Minha resposta e proposta neste artigo é que as duas realidades promovem uma reflexão fundamental no que diz respeito à justiça de Deus. Quero, então, ponderar sobre este contexto tomando por base as duas maiores afirmações teológicas sobre a salvação: a arminiana e a reformada.

Segundo a Teologia Arminiana, os indivíduos são dotados de livre-arbítrio, ou seja, Deus não interfere nas decisões humanas e está sempre aguardando o homem decidir se quer ou não a expiação que, por definição, abrange toda humanidade. Com isso afirmam a necessidade vital do contato com a informação sobre o plano de salvação para que as pessoas tenham a oportunidade de escolher ou resistir à salvação. Bem, se para os arminianos isso reflete a justiça de Deus, também é neste ponto que encontramos um grande paradoxo quando pensamos nos povos supramencionados. Todos concordam que muita gente viveu em épocas em que seria humanamente impossível conhecer o Evangelho. A falácia mórmon da visita de Cristo à América não passa de uma lenda espetacular gerada pela mente frutífera de Joseph Smith. Neste caso, então, todos concordam que muitas etnias surgiram, viveram e desapareceram sem a possibilidade de um evangelista se infiltrar no meio deles para dar-lhes a oportunidade de escolha. E isto ocorreu sem que houvesse culpa ou negligência da parte do povo de Deus. Por exemplo, como Abraão poderia em sua época falar do Senhor Deus aos povos do extremo oriente? Ou como Isaías poderia pregar aos povos distantes do continente europeu? Ou como Filipe poderia evangelizar sobre Cristo aos ameríndios nas terras baixas da América do Sul? Vejam que aqui não há negligência, o que há é a impossibilidade temporal, geográfica e cultural, pois o progresso da evangelização estava atrelado às limitações naturais do homem em seu tempo e espaço. O próprio crescimento da igreja acompanhou o ritmo lento da caminhada humana em seu desenvolvimento tecnológico e conhecimento da existência de outros povos em regiões remotas.

Agora pensemos no futuro e a presença destes povos diante do trono de Deus no dia do juízo. No momento do veredicto divino, imaginemos alguém bradar: “como posso ser condenado por algo que não pude escolher?” Percebam que o arminianismo possui este corolário uma vez que a salvação individual depende da escolha de cada um. A dificuldade surge quando não se pode escolher sobre aquilo que nunca se ouviu. Claro que se pensarmos em épocas posteriores ao século XVI concluiremos que as igrejas possuíam a responsabilidade de enviar missionários ao continente americano. Mas, e antes quando ninguém conhecia a existência dos povos indígenas ou do longínquo continente? Como Deus pode ser justo em condenar estes povos sem ter dado a eles a oportunidade de escolha? Aqui temos um problema moral grave, ou seja, se o arminianismo está com a razão, o resultado é um ato injusto da parte de Deus, pois sua condenação cairá sobre pessoas que nunca tiveram contato com a sua Lei especial que menciona a possibilidade da salvação. Se, porventura, os teólogos lançarem mão sobre o texto que afirma sobre o fato do homem ser indesculpável pela revelação natural, ainda assim sabemos que a salvação vem pelo ouvir a Palavra de Deus. E o problema criado por este ramo teológico permanece.

Diante deste sério paradoxo, percebemos que a visão reformada é, sem dúvida nenhuma, muito mais coerente, uma vez que sempre vai resultar num Deus eternamente justo em seu caráter e atos. Isto concorda com uma posição mais bíblica: a Predestinação.

Segundo a Teologia Reformada, Deus, em sua soberana vontade, elegeu incondicionalmente o seu povo, retirando-o da condenação, da morte espiritual e da depravação total, situações advindas pela escolha dos nossos primeiros pais: Adão e Eva. A conversão só ocorre aos eleitos que, ao compreenderem o plano de salvação divino pela evangelização e pela iluminação do Espírito Santo, não podem resistir à graça. Por isso há um ponto muito importante a ser destacado: a expiação de Cristo alcança apenas os predestinados. Em palavras mais simples, Deus, soberanamente, elegeu somente alguns para a salvação eterna. Conseqüentemente, o pecador será condenado, não por que deixara de escolher a Cristo mediante a pregação do Evangelho, mas por que está em depravação total pelo pecado ocorrido no Éden. Ninguém, neste caso, poderá dizer, no dia do julgamento final, que Deus foi injusto por não ter dado a chance de escolha entre Cristo como salvador e a condenação. Pelo contrário, todos, sem exceção alguma, tremerão diante da justiça de Deus que é perfeita, misericordiosa e absoluta.

Aqui neste contexto podemos inserir os antigos povos que surgiram, viveram e desapareceram em tempos imemoriais sem ouvirem uma palavra sequer do Evangelho. Eles serão condenados justamente, pois para isto foram destinados e, em Adão, isto escolheram.

Concluo dizendo que não é meu objetivo nesta reflexão minorar a responsabilidade da inadimplência missionária. Há uma ordem específica para que preguemos o Evangelho a toda criatura, não fazê-lo é pecar por desobediência. Até porque a salvação vem pelo ouvir, por isso todo crente possui esta dívida para com os descrentes. O que quero ressaltar aqui é a situação de povos antiqüíssimos que nunca ouviram a palavra de salvação devido ao momento em que viveram, paralelo ao desenvolvimento que a Igreja passava temporal e geograficamente. Muitos arminianos nos acusam de imputar ao Senhor Deus atos de injustiça por retirar do homem o livre-arbítrio. Mas o problema é muito mais grave do outro lado, pois se Deus supostamente deixou a escolha ao homem em decidir entre a salvação ou não, qualquer um que não tenha ouvido sobre esta salvação, sendo-lhe retirada a possibilidade de opção, sentirá o direito de fazer uma afirmação absurda e totalmente inverídica: “Deus é injusto em alguns casos na trajetória humana”. É claro que não é assim que encontramos nas Escrituras. E, embora esta reflexão esteja pautada muito mais na busca de uma coerência empírica, seu resultado aponta para o que já conhecemos conforme registrado nas Escrituras, ou seja, nosso Deus é eternamente soberano, misericordioso, livre e, acima de tudo, santo e justo.

Pragmatismo versus Fidelidade

Uma das características mais comuns em uma sociedade humana é valorizar e buscar o sucesso. Em palavras mais diretas, o ser humano sempre busca os meios utilitaristas para ser um bem-sucedido ante seus pares e admiradores. A cultura dita ocidental navega sobre as águas caudalosas da concorrência e da visão empresarial, sofrendo as imposições estatísticas onde os números contam mais alto que a ética, o pudor e o bom senso. O desejo de ganhar sempre e estar à frente dos concorrentes são a palavra de ordem do sistema em que vivemos. Trata-se das lutas de classificação em meio às concorrências acirradas.
Com relação a algumas igrejas cristãs, pelo que tenho percebido, a prática tem sido a mesma. Se perguntarmos hoje qual a evidência do sucesso em uma igreja que se diz cristã, sem medo de errar, seus líderes apontariam ao número de membros já “conquistados” através do seu método “infalível”. “Temos hoje três mil membros em apenas dois anos de trabalho e isso se deve à nossa visão de ministério” poderia bradar algum pastor jactancioso de uma entidade qualquer. O mais triste é que neste caldeirão vale tudo: promessa de prosperidade, capacidade de tornar alguém um líder em poucos meses, grupos que se reúnem em casa, rede ministerial, louvor animado, cura de enfermidades, encontros secretos para sessões de psicanálise “evangélica” etc. Em outras palavras, o que vale é o método e, conseqüentemente, os números (membros) angariados. O que mais chama a atenção, em minha opinião, é o desmantelo teológico, a intolerância, o desrespeito para com outros segmentos mais simples e modestos e a valorização do método inovador em detrimento de um ensino bíblico responsável, da comunhão e da visão de Corpo, desembocando no proselitismo explícito (cooptação de membros de outras igrejas).
Seria isto cristianismo? Embora cada grupo reivindique a autoridade bíblica para o seu método – por vezes sem ética – duvido muito que o modelo proposto nas Escrituras seja qualquer um destes. Se olharmos com sinceridade para a Palavra, vamos perceber que não existe ênfase nos números de membros. Excetuando Atos 2: 41, em nenhum outro lugar há a menção do número de membros em uma igreja, aliás, o próprio apóstolo Paulo afirma que na cidade de Corinto havia batizado apenas dois indivíduos e uma família. O mesmo apóstolo, ao dar seu relatório no final da vida, não informou a quantidade de pessoas que havia experimentado a conversão com seu procedimento evangelístico (que era a simples pregação do Evangelho), mas disse: “... combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé...”, isto por que ele, Paulo, sabia muito bem que as conversões não dependiam de algum método ou modelo “divinamente revelados”, mas sim, pela ação soberana de Deus, ou seja, cada igreja deveria ser fiel enquanto “... o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos" (Atos 2: 47 – grifo meu). Esta afirmação é desconcertante, imagino, pois retira completamente o mérito dos pobres e equivocados líderes das massas e recoloca-o em seu devido lugar: a soberania de Deus. O que pensar, por exemplo, das palavras de Paulo quando diz: "Logo, tem ele [Deus] misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz" (Rm 9: 18)?

Não quero aqui desestimular o ardor evangelístico, tal ato seria uma blasfêmia contra a vontade de Deus, muito pelo contrário, não devemos medir esforços para pregar o evangelho aos pecadores. O que quero ressaltar é que os eleitos irão se converter independente do método que usamos. Não importa se o pregador é um visionário intelectual ou um camponês que mal sabe se expressar; não importa se todos estão na visão da moda ou fora dela; não importa se a igreja passou a ter três mil membros em dois meses ou se é um pequeno rebanho com poucos membros em uma cidade onde o evangelho é perseguido violentamente. " Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia" (Rm 9: 16).

Creio que está na hora dos pastores e líderes atentarem para a exposição honesta da Palavra de Deus, para o ardor evangelístico e, principalmente, para a humildade e a ética no cumprimento das Escrituras. Em outras palavras, o principal é ser fiel. Quanto aos que irão se converter, bem, isto é com a soberania do Deus único sobre todos.


Sola Scriptura.
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